O empreendedorismo negro já é maioria no Brasil, mas ainda é menos formalizado. Segundo o Sebrae, com dados da PNAD Contínua do IBGE, pretos e pardos somavam 15,8 milhões de donos de pequenos negócios em 2025, 52,3% do total. No 4º trimestre de 2024, porém, só 24,7% dos donos de negócio negros tinham CNPJ, contra 44,3% dos brancos. Em Campo Grande, onde 52,7% da população se declarou preta ou parda no Censo 2022, a formalização via MEI ou ME é um passo concreto para emitir nota fiscal e organizar o negócio como empresa.
Por que falar de empreendedorismo negro no mês da Consciência Negra
Novembro, com o 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é um bom momento para olhar com cuidado para quem empreende no país. Os números mostram uma realidade com dois lados: há avanços consistentes em quantidade de negócios, escolaridade e renda, e há diferenças persistentes em formalização, rendimento e acesso a apoio.
Este artigo reúne dados públicos conferidos, explica as principais barreiras e mostra caminhos práticos de formalização para quem empreende em Campo Grande. Não há aqui histórias ou personagens: só números com fonte, período e universo indicados.
Empreendedorismo negro no Brasil: o que os números mostram
O Sebrae acompanha os donos de negócio (trabalhadores por conta própria e empregadores) com base na PNAD Contínua do IBGE. Pelo levantamento Empreendedorismo Negro no Brasil sob a Ótica da PNAD Contínua, divulgado pela Agência Sebrae em 04/05/2026, com dados de 2012 a 2025:
- Pretos e pardos somavam 15,8 milhões de donos de pequenos negócios, 52,3% do total, com alta de mais de 30% em 13 anos.
- Os empreendedores brancos eram cerca de 14 milhões (46,4% do total), com alta de 21,7% entre 2012 e 2025.
- O rendimento médio habitual dos empreendedores negros passou de R$ 2.115 (2015) para R$ 2.601 (2025), mas ainda equivalia a cerca de 56% da renda dos empreendedores brancos.
- A parcela com ensino superior incompleto ou mais subiu de 5,9% (2012) para 17,2% (2025).
- A proporção que contribui para a Previdência cresceu de 18,1% (2012) para 30,5% (2025).
- Serviços concentravam 42,4% dos empreendedores negros.
Esses dados são nacionais. São retratos de quem já empreende, não previsões sobre negócios específicos.

Necessidade ou oportunidade
O GEM Brasil 2025 (Global Entrepreneurship Monitor, conduzido pela Anegepe com apoio do Sebrae, com adultos de 18 a 64 anos) traz um recorte por cor/raça. Entre os empreendedores iniciais, 44,8% dos pretos ou pardos empreenderam por necessidade, contra 32,4% dos brancos. Para quem começa por necessidade, buscar orientação e organizar o negócio desde cedo ganha ainda mais peso.
E em Mato Grosso do Sul e Campo Grande?
Não encontramos, nas fontes oficiais consultadas, um levantamento público com o número de empreendedores negros em Mato Grosso do Sul ou em Campo Grande. Por isso, os dados de empreendedorismo deste artigo são nacionais ou regionais. O que existe com recorte local é o perfil da população, medido pelo Censo 2022 do IBGE:
| Local | População total | Pardos | Pretos | Pretos + pardos* |
|---|---|---|---|---|
| Mato Grosso do Sul | 2.757.013 | 1.293.797 (46,9%) | 179.101 (6,5%) | 1.472.898 (53,4%) |
| Campo Grande | 898.100 | 407.905 (45,4%) | 64.997 (7,2%) | 472.902 (52,7%) |
*Cálculo a partir de valores divulgados: soma de pretos e pardos dividida pela população total. Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022.
No recorte regional, o estudo do Sebrae Nacional O novo retrato do negro empreendedor brasileiro (dados do 4º trimestre de 2024) mostra que o Centro-Oeste reunia 8,7% dos donos de negócio negros do país. Na região, 15,9% das pessoas negras com 14 anos ou mais eram donas de negócio, contra 19,2% das pessoas brancas. Esses números valem para a região inteira, não especificamente para Mato Grosso do Sul.
As barreiras: formalização, renda, crédito e espaço
Menos negócios com CNPJ
A diferença mais nítida está na formalização. No 4º trimestre de 2024, segundo o mesmo estudo do Sebrae Nacional com base na PNAD Contínua, 24,7% dos donos de negócio negros tinham registro no CNPJ, contra 44,3% dos donos de negócio brancos: uma diferença de 19,6 pontos percentuais. O estudo também aponta que a formalização cresceu mais entre os negros do que entre os brancos desde 2015.
Donos de negócio com CNPJ, por cor/raça (Brasil, 4º trimestre de 2024, em %)
Escala de 0% a 100%. Universo: donos de negócio (conta própria e empregadores). Fonte: Sebrae Nacional, O novo retrato do negro empreendedor brasileiro, com dados da PNAD Contínua/IBGE.
| Grupo | Com CNPJ | Sem CNPJ |
|---|---|---|
| Donos de negócio negros | 24,7% | 75,3% |
| Donos de negócio brancos | 44,3% | 55,7% |
Renda menor, mesmo com avanços
O rendimento médio dos empreendedores negros atingiu o maior valor da série, mas ainda corresponde a cerca de 56% do rendimento dos empreendedores brancos (Sebrae/PNAD Contínua, 2025). No estudo com dados do 4º trimestre de 2024, só 10,1% dos donos de negócio negros eram empregadores; a grande maioria trabalhava por conta própria.
Acesso a crédito
Crédito depende de histórico, comprovação de renda e, muitas vezes, de documentação da empresa. Negócios sem CNPJ, sem conta empresarial e sem registro de faturamento costumam ter menos elementos para apresentar a bancos e cooperativas. A formalização não garante crédito, já que a análise é sempre da instituição financeira, mas organiza informações que normalmente são pedidas nesse processo.
Espaço e endereço para trabalhar
Muitos negócios começam em casa. Isso funciona para várias atividades, mas pode trazer limitações: falta de um lugar adequado para receber clientes, dificuldade de separar a rotina pessoal da profissional e dúvidas sobre usar o endereço residencial no CNPJ. A viabilidade do endereço para cada atividade é analisada pelo município, inclusive pelas regras de uso do solo.

Onde buscar apoio em Campo Grande
Segundo o GEM Brasil 2025, 41,0% dos empreendedores pretos ou pardos de 18 a 64 anos declararam ter procurado algum órgão de apoio, contra 44,6% dos brancos. Entre os apoios citados pelos pretos ou pardos, os mais frequentes foram contador (41,7%) e Sebrae (40,5%); entre os brancos, o Sebrae foi citado por 28,5%. Para quem está em Campo Grande, os caminhos com informação pública verificável são:
- Sebrae/MS: oferece orientação a pequenos negócios. Em maio de 2026, por exemplo, realizou a Semana do MEI, com atendimento gratuito para formalização e regularização de microempreendedores em unidades de Campo Grande. Consulte a agenda atual de cursos e atendimentos no site do Sebrae.
- Portal do Empreendedor (gov.br): é o canal oficial para se formalizar como MEI, emitir guias e fazer a declaração anual. A formalização é gratuita.
- Contador: é o profissional indicado para avaliar o enquadramento (MEI, ME ou outro), os impostos e as obrigações do seu caso.
Atenção: desconfie de quem cobra para "abrir MEI" pelo Portal do Empreendedor ou promete crédito garantido em troca de taxa antecipada. A formalização como MEI é gratuita no canal oficial, e a aprovação de crédito sempre depende da análise da instituição financeira.
Programas específicos para afroempreendedores mudam de edição para edição. Antes de se inscrever, confira o nome do programa, o período de inscrição e os requisitos no site oficial do órgão responsável.
Formalização com CNPJ: MEI ou ME
A formalização é o ponto em que a diferença apontada pelos dados pode ser enfrentada no dia a dia de cada negócio. Ter CNPJ permite emitir nota fiscal, abrir conta empresarial e participar de cadastros de fornecedores, por exemplo. Também traz obrigações, que precisam caber na rotina e no caixa.
MEI: o primeiro passo para muitos negócios
Pelas orientações do gov.br, o MEI é o pequeno empresário que trabalha por conta própria, dentro de um limite anual de faturamento e de atividades permitidas. Pontos importantes:
- A formalização é gratuita e feita no Portal do Empreendedor, com login gov.br.
- O MEI paga uma contribuição mensal pelo DAS e entrega a declaração anual (DASN-SIMEI) até 31 de maio do ano seguinte.
- O MEI não pode ter sócios nem ser sócio, titular ou administrador de outra empresa.
- As regras de limite de faturamento e de contratação de empregados do MEI foram alteradas por lei complementar em outubro de 2026, com efeitos escalonados. Confira os valores vigentes no Portal do Empreendedor ou com seu contador antes de decidir.
ME: quando o negócio cresce ou não cabe no MEI
Quem tem sócio, exerce atividade não permitida ao MEI ou ultrapassa o limite de faturamento precisa avaliar outro enquadramento, como a microempresa (ME). A transição exige planejamento tributário. Explicamos esse caminho no artigo sobre a transição do MEI para ME, e o passo a passo de abertura no guia completo para abrir CNPJ em Campo Grande.
Dica: antes de abrir o CNPJ, faça a consulta de viabilidade do endereço para a sua atividade. Ela indica se aquele local é compatível com o que você vai fazer e evita retrabalho no registro.
Espaço profissional e endereço para o CNPJ em Campo Grande
Para muitos negócios, o passo seguinte à formalização é ter onde trabalhar e receber clientes fora de casa, ou um endereço para registrar a empresa. Em Campo Grande, a Lei Complementar nº 513, de 21/12/2023, regula os coworkings que oferecem esse tipo de serviço. Alguns pontos da lei que valem para quem contrata:
- Domicílio fiscal × endereço comercial (art. 1º, §1º): o domicílio fiscal é o endereço que vai para o contrato social, a junta comercial, a Receita Federal e os órgãos municipais e estaduais. O endereço comercial serve apenas para divulgação.
- Contrato obrigatório (art. 3º, §3º): quem registra domicílio fiscal no coworking precisa firmar contrato com ele.
- Pessoa física antes do CNPJ (art. 3º, §4º): o contrato pode ser assinado como pessoa física para abrir a empresa e, depois da abertura, deve ser aditado ou substituído para a pessoa jurídica, sem ônus para o usuário.
- Viabilidade (art. 5º, a): é o município que analisa e conclui a viabilidade do domicílio fiscal no coworking, considerando a legislação de uso do solo. Nenhum coworking pode garantir esse resultado.
Saiba mais em endereço fiscal em Campo Grande e confira o que avaliar antes de contratar no checklist para escolher coworking em Campo Grande.

O que o 199 Offices oferece
O 199 Offices é um coworking na Rua Amazonas, 203, no Monte Castelo, em Campo Grande. É coworking autorizado nos termos da LC 513/2023 e membro fundador do MS.CO. Os formatos disponíveis são:
- Estações de trabalho, para quem precisa de um lugar para trabalhar fora de casa;
- Escritórios prontos, para quem precisa de uma sala privativa;
- Salas de reunião, para atender clientes e parceiros quando necessário;
- Endereço fiscal, para registrar a empresa, com contrato, conforme a LC 513/2023.
A escolha depende da sua atividade, da frequência de uso e do que você precisa registrar. Um espaço de trabalho não substitui o planejamento do negócio nem garante clientes, mas pode resolver a falta de um lugar adequado para trabalhar e receber pessoas. Se você empreende e quer conhecer outras realidades locais, leia também mulheres empreendedoras em Campo Grande.

Perguntas frequentes sobre empreendedorismo negro e formalização
Quantos empreendedores negros existem no Brasil?
Segundo o Sebrae, com dados da PNAD Contínua do IBGE, pretos e pardos somavam 15,8 milhões de donos de pequenos negócios em 2025, o equivalente a 52,3% do total.
Existe dado de empreendedorismo negro específico de Mato Grosso do Sul?
Nas fontes oficiais consultadas, não encontramos um levantamento público com esse recorte para MS ou Campo Grande. Há dados nacionais e do Centro-Oeste, além do perfil da população pelo Censo 2022: 53,4% dos moradores de MS e 52,7% dos de Campo Grande se declararam pretos ou pardos.
Quantos donos de negócio negros têm CNPJ?
No 4º trimestre de 2024, 24,7% dos donos de negócio negros tinham CNPJ, contra 44,3% dos brancos, segundo estudo do Sebrae Nacional com dados da PNAD Contínua.
Abrir MEI custa alguma coisa?
A formalização como MEI é gratuita e feita no Portal do Empreendedor, com login gov.br. Depois de formalizado, o MEI paga a contribuição mensal pelo DAS e entrega a declaração anual.
Ter CNPJ garante acesso a crédito?
Não. A aprovação de crédito depende sempre da análise da instituição financeira. A formalização ajuda a organizar documentos e registros de faturamento que costumam ser pedidos nesse processo.
Posso usar o endereço de um coworking no CNPJ em Campo Grande?
É possível, com contrato de domicílio fiscal com um coworking que cumpra a LC 513/2023. A viabilidade do endereço para a sua atividade é analisada e concluída pelo município, inclusive pelas regras de uso do solo.
Procura um espaço profissional ou endereço para o seu CNPJ?
Conheça as estações, escritórios, salas de reunião e o endereço fiscal do 199 Offices em Campo Grande. Veja os planos e condições.
Rua Amazonas, 203 - Monte Castelo - Campo Grande, MS
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um contador ou advogado para o seu caso. Confira o texto vigente das normas no Diogrande e na SEFAZ-MS.
Fontes
- Sebrae, Agência Sebrae de Notícias (04/05/2026). Escolaridade maior, avanço dos 60+ e alta no rendimento médio: veja perfil do empreendedor negro no Brasil (PNAD Contínua, 2012 a 2025).
- Sebrae Nacional (26/06/2025). O novo retrato do negro empreendedor brasileiro sob a ótica da PNAD Contínua (dados até o 4º trimestre de 2024).
- GEM Brasil 2025, Anegepe e Sebrae. Empreendedorismo no Brasil em 2025: Recorte Temático Cor/Raça.
- IBGE, Censo Demográfico 2022. Tabela 9605: população residente, por cor ou raça.
- Correio do Estado (22/12/2023). Pela primeira vez, população parda supera a branca em Mato Grosso do Sul.
- gov.br, Empresas e Negócios. Perguntas frequentes sobre o MEI.
- A Crítica (informe publicitário, 18/05/2026). Semana do MEI 2026 oferece atendimento e capacitação gratuita para empreendedores em MS.
- Lei Complementar Municipal nº 513, de 21/12/2023, Campo Grande, publicada no Diogrande nº 7.326, de 22/12/2023.